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Diário de Bordo · acervo

O paisagista que assina quarenta e seis endereços

Benedito Abbud aparece em 46 fichas do acervo, sempre no mesmo papel, em seis bairros e num arco de vinte e cinco anos. Nenhum arquiteto chega perto disso.

Por Jeferson Cerqueira3 min de leitura

O número, e por que ele surpreende

Benedito Abbud aparece em 46 fichas do acervo, todas no mesmo papel: paisagista. É mais que qualquer arquiteto catalogado. Para comparação, Pablo Slemenson assina 39 projetos de arquitetura, Patricia Anastassiadis 25, e o Aflalo Gasperini 23.

A distribuição também é diferente. Os arquitetos concentram: quem trabalha para uma incorporadora tende a repetir com ela, e o portfólio fica com a cara de um cliente. O paisagismo de Abbud está em Moema, Pinheiros, Vila Nova Conceição, Itaim Bibi, Higienópolis e Jardim Paulista, seis bairros com lógicas de terreno completamente distintas, e num arco que vai de 2003 a 2028, projetos já entregues e projetos ainda em obra.

O que isso diz sobre o produto, não sobre ele

Vale ler o dado pelo avesso.

Quarenta e seis incorporadoras diferentes chegaram, em vinte e cinco anos, à mesma conclusão: o paisagismo de um prédio de altíssimo padrão em São Paulo é contratado fora, e existe um número muito pequeno de nomes que o mercado aceita nessa posição.

Isso não acontece com arquitetura, onde o repertório é largo e a escolha é parte do posicionamento. E não acontece por acaso. O lazer do prédio paulistano cresceu muito nas últimas duas décadas: a área que antes era um playground e uma churrasqueira virou o argumento de venda que separa um lançamento do vizinho. Quando o quintal vira vitrine, quem desenha o quintal vira assinatura.

O Casa Higienópolis, de 2025, é um exemplo direto: Itamar Berezin na arquitetura, Chris Silveira nos interiores, Benedito Abbud no paisagismo. Três nomes no material de lançamento, três funções separadas, e há vinte anos o terceiro não estaria lá.

Os outros nomes da mesma prateleira

Abbud não está sozinho nessa posição, e vale nomear quem divide a prateleira com ele: Alex Hanazaki aparece em 18 fichas, Gui Mattos em 17, Rodrigo Oliveira em 17.

Somados, quatro escritórios de paisagismo respondem por quase cem endereços do acervo. É uma concentração que nenhuma outra função do projeto tem, nem arquitetura, nem interiores, nem incorporação.

O que o acervo ainda não sabe

Aqui é preciso ser honesto sobre o limite do dado.

O acervo registra quem assina, não o que foi feito. Saber que o mesmo escritório desenhou o térreo de 46 prédios não diz se ele repetiu uma fórmula ou resolveu 46 problemas diferentes. Os terrenos de Higienópolis e de Moema não pedem a mesma coisa; o que a ficha guarda é o crédito, e o crédito é mudo sobre o gesto.

O que a assinatura recorrente conta

Uma concentração como essa não é coincidência, é reputação. Quando uma incorporadora chama o mesmo paisagista projeto após projeto, ela está comprando previsibilidade: sabe o padrão que vai receber e o nome que vai poder anunciar. E quando um paisagista aceita assinar dezenas de endereços numa mesma cidade, ele carrega para cada um a gramática dos anteriores, as mesmas espécies, a mesma relação entre a água e a pedra, a mesma ideia de sombra. Para quem lê o acervo, isso vira uma chave de leitura: reconhecer a mão de Abbud num térreo é saber, antes de entrar, algo sobre como aquele prédio pensa o encontro entre o construído e o verde. A repetição, que num anúncio seria monotonia, no acervo é justamente o contrário, é a prova de uma linguagem que se sustentou por vinte e cinco anos.

📌 É uma lacuna declarada, não um esquecimento. A ficha de um paisagista registra a linguagem quando há fonte pública que a descreva, e fica em branco quando não há. Preencher com impressão seria inventar.

Fica anotado como o próximo passo do acervo, e não como conclusão deste texto.