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Diário de Bordo · branded residence

Branded residence: o que é, quem faz, o que entrega

Grifes de moda, de automóvel e de hotelaria assinando prédios. Depois de três décadas vendo produto nascer, separo o que é marca de verdade do que é só etiqueta na fachada.

Por Sergio Machado3 min de leitura

Nos últimos anos, o alto padrão de São Paulo ganhou um capítulo novo: as branded residences, prédios que carregam o nome de uma grife de moda, de automóvel ou de hotelaria. É um movimento que já era grande no exterior e chegou com força aqui. Depois de três décadas acompanhando produto do lançamento à entrega, aprendi a olhar essas assinaturas com admiração e com desconfiança, na dose certa.

O que uma marca empresta

Uma branded residence, na melhor versão, empresta ao prédio três coisas: um nome, um projeto e, às vezes, um serviço. O nome traz desejo e liquidez, o cliente reconhece a grife antes de entrar. O projeto traz um DNA de desenho que a marca não deixa diluir. E o serviço, quando existe, é o que separa o bom do extraordinário.

Veja como isso aparece no acervo. A Pininfarina, que desenha carros italianos, assina a Heritage Cyrela by Pininfarina e o Epic by Pininfarina, e o que ela traz é linha, proporção, o mesmo olho que desenha uma carroceria aplicado a uma fachada. A Armani leva a sua contenção para a Vista Cyrela by Armani Casa. O universo do YOO, do design assinado, aparece na Cyrela Moema by YOO. E a hotelaria entra pela porta mais completa de todas na Fasano Residences Cidade Jardim, onde a marca não empresta só o nome, empresta o ofício de servir.

Onde mora a diferença

A pergunta que faço, e que ensino o comprador a fazer, é simples: o que exatamente a marca assina? Há prédios em que a grife desenhou cada detalhe, escolheu material, definiu a operação. E há prédios em que a marca entrou tarde, para dar nome a uma fachada que já existia. Os dois se vendem com a mesma etiqueta, e valem coisas muito diferentes.

Uma Capri Lifestyle by Dolce&Gabbana Casa promete um repertório estético; o que interessa é saber até onde ele foi executado. Marca de verdade se prova nos acabamentos que você não vê no folder: a ferragem, a junta, o hall que não envelhece. Grife na fachada e obra comum por dentro é o pior dos dois mundos, porque você paga o prêmio da marca sem receber o padrão dela.

O que o tempo cobra

Há ainda a conta que só aparece depois. Uma branded residence bem feita, com a Cyrela ou outra incorporadora séria por trás, sustenta valor porque a marca protege o produto: há um padrão a manter, uma reputação em jogo. Uma mal feita envelhece como qualquer prédio comum, só que com uma expectativa frustrada colada ao nome. O prêmio que você pagou na entrada vira desconto na revenda.

A liquidez do nome

Há um efeito da marca que o comprador só sente na hora de vender, e ele corta para os dois lados. Uma branded residence bem executada revende mais rápido, porque o nome já é conhecido do comprador estrangeiro e do investidor, que reconhecem uma Pininfarina ou um Fasano antes mesmo de olhar a planta. Mas o mesmo nome cobra manutenção: um prédio de grife que deixou a fachada e o hall envelhecerem decepciona na revenda mais do que um prédio comum bem cuidado, justamente porque a expectativa era maior. A marca acelera a venda quando o produto a honra, e trava quando o produto a desmente. Comprar uma branded é assumir esse contrato com o tempo, e é por isso que insisto tanto em olhar a execução, não a etiqueta.

Não sou contra branded residence, longe disso: as melhores estão entre os endereços mais desejáveis que já vi nascer. Sou a favor de comprar com o olho aberto. A marca é um bom começo de conversa, nunca o fim dela. O que sustenta um imóvel de altíssimo padrão continua sendo o de sempre, projeto, localização, execução e quem construiu. A grife, quando é séria, reforça tudo isso. Quando é só etiqueta, esconde a falta.